Ontologia de lógica reflexiva: o ser como estrutura

O ser como complexo relacional reflexivo

As dimensões ontológicas na sua articulação dialética

SER

O acordo atual dos elementos de sentido na realização concreta

Materialidade

A dimensão do objetal

Reflexividade

A dimensão da auto-referência

Socialidade

A dimensão da intersubjetividade

Significatividade

A dimensão do incondicionado

A Filosofia Reflexiva desenvolve uma ontologia que não parte de substâncias isoladas ou categorias estáticas, mas de estruturas relacionais reflexivas. O “ser” não é determinado como princípio abstrato, mas decifrado a partir da estrutura concreta da reflexão ela mesma. Esta ontologia de lógica reflexiva supera tanto o materialismo como o idealismo, concebendo o ser como unidade diferenciada dos quatro elementos de sentido (objeto, sujeito, diálogo, médium).

O “ser” como centro no complexo dos elementos de sentido

O conceito de “ser” em Heinrichs não é entendido como o princípio mais abrangente ou a abstração mais elevada (como acontece frequentemente na metafísica), mas como o centro no complexo dos elementos de sentido. É a atualidade da realização, o acontecimento concreto em que os quatro elementos se encontram e constituem a realidade. O ser é o acordo dinâmico dos elementos num processo concreto de sentido.

“O ‘ser’ é o centro no complexo dos elementos de sentido. É o acordo atual dos elementos, o acontecimento do encontro, não um princípio ‘supremo’ ou ‘mais abrangente’.”

Esta conceção abre um novo acesso às questões ontológicas clássicas, desenvolvendo-as a partir da estrutura reflexiva concreta em vez de partir de princípios abstratos.

A dialética de objeto e sujeito

A objetividade como categoria relacional

Graus dialéticos da objetividade

Dialética da objetividade

As relações reflexivas do mundo objetivo

  • Objetividade como 'não-eu' relacional ao sujeito — A objetividade apenas tem sentido em relação à subjetividade
  • Parte ou não-parte da natureza? — A dialética contraditória do 'por um lado-por outro lado'
  • Alteridade como negatividade — 'Omnis determinatio est negatio' (Espinosa)
  • Objetivação linguística do mundo — Dialética de materialidade e idealidade (coisa e sentido)

Uma intuição central da Filosofia Reflexiva diz:

“A objetividade apenas tem sentido em relação à subjetividade.”

Isto não significa que o objeto seja meramente “construído” subjetivamente, mas que a categoria de objeto apenas adquire o seu sentido no complexo relacional com os outros elementos de sentido. O esforço mais intenso em prol da objetividade conduz, paradoxalmente, aos seus próprios pressupostos subjetivos, como se evidencia nas relações de incerteza de Heisenberg.

A dialética contraditória: parte e não-parte da natureza

Um exemplo fundamental de dialética ontológica é a relação do ser humano com a natureza:

  1. Tese: O ser humano, com a sua corporalidade, é parte da natureza.
  2. Antítese: Pela sua autoconsciência, situa-se fora da natureza.

Trata-se de uma dialética contraditória do “por um lado-por outro lado”, que não se resolve numa síntese. O ser humano é inteiramente um ser natural — e não o é de forma alguma. Esta estrutura paradoxal não é um erro de pensamento, mas a expressão da constituição reflexiva do próprio ser humano.

A relação corpo-alma: dialética de interpenetração

A referência objetual mais imediata é a experiência de pertença de “objetos” corporais-objetuais ao próprio si-mesmo. Esta interpenetração ou mútua compenetração dos princípios corpo, alma e espírito conduz a uma estrutura ontológica diferenciada:

  1. Corpo: O princípio da materialidade e da extensão
  2. Alma: O princípio da auto-reflexividade e da individualidade
  3. Espírito: O princípio da transsubjetividade e do sentido

Estes três princípios não se situam paralelamente, mas interpenetram-se mutuamente, o que conduz a uma ordem antropológica de sete graus (cf. Os sete níveis de consciência).

A dialética de interpenetração supera o dualismo cartesiano de espírito e matéria sem cair num monismo simplista. Ela evidencia a unidade diferenciada de corpo, alma e espírito no ser humano concreto.

Dialética da natureza e reflexão das ciências naturais

Formas de dialética da natureza

Forma dialética Manifestação Significado reflexivo
Dialética de inversão (Plichta) Relações de reciprocidade entre espaço/massa e tempo/energia A estrutura ontológica fundamental do mundo físico revela-se como dialética Ligação entre ciência natural matemática e lógica reflexiva
Ordem implícita (Bohm) Relação entre a ordem 'implícita' e 'explícita' na teoria quântica A própria matéria evidencia estruturas análogas à reflexão Universo holográfico como modelo de unidade reflexiva na diversidade
Dialética quântico-teórica Dualismo onda-partícula, relação de incerteza, emaranhamento quântico A observação é constitutiva para o observado Superação da separação estrita entre sujeito e objeto também nas ciências naturais

A Filosofia Reflexiva abre o olhar para estruturas dialéticas na própria natureza. O físico Peter Plichta descobriu uma dialética de inversão de espaço e massa, bem como de tempo e energia: entre espaço e massa, e entre tempo e energia, existe em cada caso uma relação de inversão ou reciprocidade. Esta descoberta estabelece uma ligação entre a ciência natural matemática e a lógica reflexiva das humanidades.

David Bohm utiliza os conceitos “implícito” e “explícito” de modo similar a Heinrichs e aplica-os ao implícito e explícito na matéria. A sua teoria da “ordem implícita” entende o universo holograficamente, sendo a ordem implícita a ordem fundamental.

Estes desenvolvimentos mostram que a natureza não se situa simplesmente, como esfera do não-reflexivo, em oposição à consciência reflexiva, mas apresenta ela própria estruturas análogas à consciência. A ontologia de lógica reflexiva oferece um quadro para sistematicamente localizar estas intuições.

A dialética do social: indivíduo e comunidade

Dimensões dialéticas do social

Dialética do social

As estruturas reflexivas da realidade social

  • Dialética de indivíduo e comunidade — De participação e contribuição
  • Origem do pensamento social a partir da vida social — Dependência reflexiva de teoria e prática
  • A dialética teoria-prática desenvolvida — Dependência dialética de consciência e relações sociais
  • O domínio ameaçador da falsa consciência — Ideologia como discrepância teoria-prática

A dimensão social constitui uma região ontológica autónoma, que não é redutível a indivíduos ou a relações materiais. O social é caracterizado por uma dialética de participação e contribuição: o indivíduo participa nos diferentes níveis do sistema social e ao mesmo tempo contribui com a sua própria parte.

Um outro aspeto é a dialética teoria-prática: o pensamento social emerge da vida social, mas atua ao mesmo tempo sobre ela. Marx representou isto no conceito de “base e superestrutura”: “Os pensamentos dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes.” A ontologia de lógica reflexiva amplia esta abordagem ao diferenciar os vários graus de reflexão do social (cf. Teoria Social).

A dialética do médium de sentido: posição e pressuposição

A dialética de sentido contrário do médium de sentido

Posição e pressuposição do médium

Consciência individual

Constituição ativa de sentido

Intersubjetividade

Horizonte de sentido partilhado

Sentido universal

Horizonte de significação abrangente

O médium de sentido é caracterizado por uma dialética de sentido contrário de posição e pressuposição: é simultaneamente posição do eu e dos indivíduos envolvidos, e pressuposição das capacidades e contribuições individuais. Esta contrariedade constitui um tipo próprio de dialética.

Esta estrutura possibilita uma correção de lógica reflexiva da “prova ontológica de Deus”: a capacidade de pensar o infinito demonstra uma constituição de ser decisiva do ser humano cognoscente — a sua participação no infinito. Este é o significado ontológico da dialética de posição do pensamento do infinito como infinidade ontologicamente pressuposta.

A dialética do médium de sentido constitui a chave para a compreensão tanto das tradições de pensamento ocidentais como das orientais. Na tradição ocidental, foi frequentemente sublinhado o espírito individual; na oriental, o médium de sentido universal (Atman, Tao). A Filosofia Reflexiva integra ambas as perspetivas numa estrutura diferenciada.

A questão da imortalidade e da reencarnação

Da estrutura de lógica reflexiva da autoconsciência resulta uma importante consequência ontológica: um ser que é capaz de se relacionar completamente consigo mesmo não pode simplesmente perecer no seu núcleo. A lógica reflexiva fundamenta a imperecibilidade de princípio do núcleo reflexivo da pessoa.

Esta intuição filosófica correlaciona-se, para Heinrichs, com indícios empíricos como relatos de experiências de quase-morte e constitui o fundamento para a possibilidade da reencarnação. O corpo causal (S1) — a autoconsciência pura ou a alma causal — é o portador da continuidade individual ao longo de diferentes encarnações.

Esta perspetiva ontológica não é dogmática, mas resulta da própria estrutura reflexiva da consciência. Ela mostra que a questão da imortalidade e da continuação após a morte não é primariamente uma questão religiosa, mas ontológica, que emerge da essência da autoconsciência.

Resumo: Ontologia como hermenêutica estrutural reflexiva

A ontologia da Filosofia Reflexiva não é uma doutrina de substâncias isoladas ou categorias abstratas, mas uma hermenêutica estrutural que decifra o ser a partir do complexo concreto dos elementos de sentido. Ela supera os dualismos e reducionismos tradicionais ao evidenciar a unidade diferenciada das várias regiões do ser.

O ser não é entendido como princípio estático, mas como acontecimento dinâmico da constituição de sentido na interação dos quatro elementos. As regiões ontológicas (natureza, subjetividade, socialidade, horizonte de sentido) não são isoladas, mas consideradas na sua articulação reflexiva.

Esta ontologia de lógica reflexiva abre novas perspetivas sobre os problemas filosóficos clássicos e oferece ao mesmo tempo possibilidades de conexão com os conhecimentos atuais das ciências naturais e sociais. Não é uma doutrina acabada, mas um modelo de pensamento dinâmico que procura apreender a realidade na sua estrutura reflexiva.


Leitura complementar

Todas as obras mencionadas estão disponíveis na Reflexivity Press.